A crise de honestidade

by @prflavionunes

Há um comportamento padrão que, espera-se, seja seguido quando se fala de honestidade, e isso frequentemente vem de berço. Há também um padrão bíblico, que nos mostra o caminho a ser trilhado. Embora medir o grau de honestidade das pessoas não seja uma tarefa fácil, é perfeitamente possível aferi-lo, quando tomamos por base os padrões bíblicos e familiares.

Obviamente, ninguém gosta de ser tachado de desonesto, mesmo em face da desvalorização da palavra “honestidade” na bolsa de valores da vida. De qualquer forma, essa é uma questão suficiente para levantar o problema e as mais variadas respostas. Em suma, você é honesto?

Imagine a seguinte situação. Você está num restaurante e nota que o garçom, acidentalmente, lhe deu dinheiro a mais no troco. Você devolveria? Agora tente responder a esta segunda situação: você encontra uma carteira com grande quantia de dinheiro. Você procuraria o dono para devolver ou, ao contrário, se apropriaria dela e do dinheiro nela contido?

Estas questões têm sido perguntadas por Money, uma revista americana especializada em mercado financeiro, e as respostas não têm sido das melhores. Em 1987, o levantamento feito pela revista indicou que 15% dos entrevistados nada diriam ao garçom, e que 25% ficariam com o dinheiro da carteira. A conclusão da revista é que a palavra honestidade e o comportamento inerente a ela tem se tornado cada vez mais obsoletos.

A honestidade no primeiro mundo

A edição inglesa da Revista Seleções, de julho de 1996, traz uma reportagem especial sobre a honestidade britânica, com o título O Quanto Somos Honestos? Essa reportagem foi o resultado de uma experiência que a Revista Seleções realizou em oito cidades britânicas. Em cada uma delas, dez carteiras foram colocadas estrategicamente colocados em locais diversos, como se estivessem perdidas, cada uma continha trinta libras, o equivalente a R$ 214,00, e um cartão com o nome do suposto dono, dois números de telefone para contato, além de fotografias da família, alguns tíquetes e recibos. Em seguida, algumas pessoas ficaram monitorando cada carteira, para ver o que aconteceria. O resultado foi surpreendente. Das 80 carteiras “perdidas”, apenas 52foram devolvidas, ou seja, 65% das pessoas que “acharam” as carteiras foram aprovadas no quesito honestidade. O que choca nessa percentagem é que os outros 35%, que não devolveram as carteiras, representam um número elevado demais para uma nação que se intitula cristã e, consequentemente, supõe-se correta.

Experiências semelhantes foram repetidas nos EUA e em onze países da Europa. Com exceção apenas de Noruega e Dinamarca, dois países onde 100% das carteiras foram devolvidas, o resultado também foi negativo. Em média, 50% das carteiras “perdidas” não foram devolvidas. O resultado das monitorações indicou que tanto quem devolveu, quanto quem não devolveu, pertenciam a diferentes classes sociais e possuíam os mais variados níveis de escolaridade. Dessa forma, concluiu-se, então, que honestidade e desonestidade independem da escolaridade ou situação social. Honestidade é algo inerente ao caráter.

A graça de ser honesto

Há muitos anos, os irmãos de duas importantes cidades resolveram fazer uma grande oferta, para ajudar os irmãos pobres de uma igreja situada em outra cidade distante. Designaram, então, um pastor para levar o montante arrecadado. Entretanto, esse pastor meditou acerca de algumas questões: Se eu for sozinho, o que vão pensar as pessoas? Será que vão pensar que eu sou desonesto e que desviei algum dinheiro?

Provavelmente uma reunião foi designada para esse fim, e a questão foi discutida. Como resultado, a igreja elegeu outro conhecidíssimo e respeitado líder para acompanhar o pastor. Respirando aliviado, aquele pastor escreveu emocionado numa carta: “O irmão foi eleito pela igreja para ser nosso companheiro no desempenho desta graça, ministrada por nós, para a glória do próprio Senhor, e para mostrar nossa boa vontade, evitando assim que alguém nos acuse em face dessa generosa dádiva administrada por nós, pois o que nos preocupa é procedermos honestamente, não só perante ao Senhor, como também diante dos homens”.

A história a qual estou me referindo encontra-se narrada no capítulo 8 da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios, e o texto acima está nos versículos 19 a 21. O Pastor ao qual me refiro é o próprio apóstolo Paulo. As igrejas da Macedônia e da Acaia tinham levantado uma grande oferta, em benefício dos pobres dentre os santos que viviam em Jerusalém (Rm. 15.26). Obviamente, Paulo não tinha qualquer dúvida quanto à sua própria honestidade, mas não lhe bastava ser tão somente honesto, ele queria também parecer honesto aos olhos das pessoas.

Pelo que se lê no texto acima, o seu senso de honestidade só se satisfaria se estivesse devidamente equilibrado nessas três dimensões: o que eu sei a meu respeito, o que o Senhor está vendo e o que as pessoas vão pensar. Parece um padrão elevado demais, mas era o mínimo que se espera de um cristão numa sociedade corrompida e corruptora.

Não sei se Paulo estava também influenciado pela máxima do filósofo romano Sêneca, na qual “a mulher de César não tem que ser apenas honesta, tem que parecer honesta”, mas ele sabia que isso era condição sine qua non para ser uma pessoa com crédito perante a sociedade. Na verdade, a máxima de Sêneca e o comportamento de Paulo nos mostram duas coisas: a primeira é que para ser honesto a pessoa não precisa ser crente; a segunda é que, se a pessoa é crente, tem a obrigação de ser honesto, pela simples razão de que isso glorifica a Deus, e o seu contrário lança desonra sobre o nome do Senhor. Para Paulo, viver dessa maneira, longe de ser um fardo, representava a graça de ser honesto.

Outras áreas da honestidade

Pelo que você pode notar até agora, estamos tratando de honestidade especificamente de honestidade em relação ao dinheiro. Em suas parábolas e sermões, Jesus falou mais do trato do dinheiro do que de outros assuntos, não que os outros assuntos tivessem menos importância, mas porque ele conhecia o que estava no coração do homem – o desejo de possuir. Quem tem dinheiro tem poder e capacidade de comprar prazeres ilícitos.

Há pessoas que se vangloriam de ser honestas quanto ao uso do dinheiro, mas não se preocupam em ser honestas quanto ao casamento, por exemplo. Outras são fieis no casamento, mas são desonestas quanto ao desempenho no trabalho. Alguns são fieis quanto ao horário dos compromissos, mas infiéis quanto ao pagamento das dívidas, e assim vai. Enfim, seria a honestidade uma questão de escolha pela área de interesse, ou é algo requerido por Deus para todas as dimensões da vida?

Pessoas divididas

Recentemente, um jornal americano noticiou o raro incidente ocorrido numa lanchonete fast food. O gerente tinha posto o dinheiro arrecadado durante o dia num saco de papel, próprio para embrulhar sanduiches e iria depositá-lo no final da tarde. Uma atendente, entretanto, pensando erradamente que se tratava de uma ordem de comida, deu o pacote para o casal que estava com seu carro ao lado da janela de atendimento. Pouco depois, quando o homem e a mulher abriram o pacote num parque próximo, ficaram chocados com o que viram – uma boa quantia de dinheiro que não era deles. Imediatamente voltaram ao restaurante e devolveram o dinheiro.

O sumiço do dinheiro já havia sido notificado como roubo, de modo que alguns carros de polícia, e uma estação de TV, estavam no local. O gerente ficou bastante aliviado e feliz por ter o dinheiro de volta. Então, ele disse ao casal: “vocês poderão poder aparecer no noticiário noturno, por causa da honestidade que mostraram”. “Por favor, nada de publicidade”, replicou o homem nervosamente, “esta que está comigo não é a minha esposa”.

Ser honesto com o dinheiro de outros, mas desonesto com a própria esposa, demonstra inconsistência na conduta moral.

O bom cheiro de Cristo

A Bíblia nos adverte da necessidade de sermos honestos, inclusive com as pequenas e aparentemente insignificantes coisas da vida, pois com isso honramos o nome do Senhor. Proceder bem significa exalar “o bom perfume de Cristo”. Ao contrário, proceder mal é exalar o “mal cheiro” de meros religiosos, sem compromisso com Jesus, é desonrar o nome de Deus.

E por falar em pequenas coisas, uma vez fui surpreendido por um irmão que, ao final do culto, tendo encontrado uma Bíblia esquecida por outro irmão, veio alegre me dizer que Deus havia respondido suas orações. Há meses que ele orava por uma Bíblia nova. Perguntei a ele: “A Bíblia tem algum nome indicando quem é o dono?” Ele disse que sim, que pertencia ao irmão fulano. Então eu lhe disse: “Deus está realmente respondendo as suas orações, mas com certeza não é a de ter uma Bíblia nova. A oração que ele está respondendo é aquela que o amado irmão fez para ser mais honesto e santo”. Para ser honesto não precisa ser crente, mas se é crente tem que ser honesto.

Ser honesto, em qualquer época ou em qualquer lugar, com coisas grandes ou pequenas, não é uma mera opção, é algo que glorifica o nome de Deus e faz com que o mundo sinta o bom perfume de Cristo naqueles que foram chamados para serem mais do que vencedores.

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Artigo publicado no Jornal Mensageiro da Paz, Em dezembro de 1996

Pr. Benjamim de Souza, AD do Maranhão

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Pr. Flávio Nunes

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